Há
um tempo atrás estava sofrendo algumas sensações muito estranhas. Eu sabia que
não eram minhas e viria a descobrir, sem surpresa, que eram fruto da chamada
magia negra, realizada por uma mulher que pouco conheço. Antes de tudo, pare e
leia: o nome magia negra pode impressionar, e atribui-se a ela no Brasil a
popular macumba, além de animais, órgãos e pessoas mortas, regados a cachaça
etc. Recentemente, foram denunciadas
práticas desse tipo envolvendo o nosso ilustre ex-presidente Collor (e política
e magia são quase irmãos, acreditem).
Mas
a magia negra é muito mais que esse folclore, que um conjunto de rituais macabros
e muito específicos para prejudicar algo ou alguém. Por vezes, você pode se
convencer que está “ajudando” uma pessoa, quando através de simples técnicas
mentais e treino, você a evoca para que faça aquilo que você quer. E,
acreditem, magia negra é, antes de tudo, exatamente isso.
Essa
mulher estava obcecada por um grande amigo meu, um homem mais velho e muito
sábio, com quem gostava de passar horas conversando. Bastou que ela flagrasse
uma vez nossa conversa, que sensações muito ruins de uma presença próxima
começaram a acontecer em mim. Eu sequer sabia algo sobre ela, nem que nos havia
visto; apenas me perguntava o que ela estava fazendo entre nós, místicos. Como
se não pertencesse ao conjunto, era isso o que eu sentia, embora fosse sempre
muito simpática comigo.
Passei
dias terríveis, sentindo coisas que não se podem classificar no repertório da
psiquiatria – e meu psiquiatra, versado no assunto, foi o primeiro a alertar-me
sobre isso. Quando soube que a mulher
havia tido uma crise de ciúme quando nos viu, liguei os fatos. Mas o mais
incrível é que, dias depois, em um centro espírita – religião cujo templo não
costumo frequentar - me deparei com essa mesma mulher. Ambas sabemos que não
existem coincidências no misticismo; e
treinando sua mente e concentração com certas técnicas, esses encontros
tornam-se muito comuns.
- Que coincidência! – exclamou, alegre por me ver. Estava justamente pensando e falando em você! Tudo o que eu penso se manifesta, incrível! – observou. Eu gelei. Tive certeza ali, diante dela, que não só ela era a autora dos ataques, como a causa ia além do ciúme: era a mais pura inveja. Ela queria saber tudo sobre minha vida. Disse-me que frequentava centros espíritas, igrejas messiânicas, tudo ao mesmo tempo, e por fim decidiu-se por aquele lugar. Mais tarde eu iria saber que ela teve acesso a livros muito específicos para controlar mentes e pessoas, daí o interesse no misticismo e em religiões. Certas técnicas, se levadas a sério e com muita concentração durante um tempo, são altamente poderosas, e nós sabemos disso. O que não sabíamos é que poderiam cair em mãos tão equivocadas.
Ela
começou, como uma amiga, a me perguntar sobre meu casamento, minha filha, tudo
em detalhes. Fui monossilábica, mas ela não se afastou.
- Eu
vou ter uma filha – sorriu animada.
-
Você está grávida? – concluí.
-
Não, ainda não. Mas vou estar logo. E o pai dela frequenta esse centro espírita
– falou, com convicção assustadora.
Eu
gelei de novo. E perguntei só para confirmar a resposta:
-
Ele sabe?
-
Não. Ele saberá no momento certo, no lugar certo – sorriu.
Ali
entendi tudo. Por onde essa mulher passa, acorrenta almas frágeis a ela. É
considerado entre os místicos algo muito grave interferir no livre-arbítrio
alheio. Pois a vontade, aquilo que nos move, é o que somos. Todos os livros
sagrados nos contam sobre a Queda, a queda do homem e dos anjos dos domínios de
Deus. Essa bela alegoria, a qual muitos temem, mostra-nos do que somos feitos.
Não seria possível para a grande mente criar outros seres a partir dele sem
vontade. A pura emanação criaria tão-somente pequenas réplicas de Deus. O
livre-arbítrio é o que nos individualiza e, assim, nos torna únicos no universo. A individualização é o que legitima a verdadeira criação.
A
mulher foi alertada sobre isso por muitos místicos, os efeitos terríveis que
poderia causar menos aos outros que a si mesma. Quem desconhece do que se
trata, algum leigo, pode enlouquecer com os sintomas que a magia negra causa. Mesmo
para quem, como eu, domina algumas técnicas de defesa e reconhece os efeitos,
ela pode fazer estragos. E infelizmente, após aquele encontro, ela passou a me
manter à rédea curta e os sintomas pioraram. A causa, contou-me meu amigo,
vinha da raiva que passei a sentir por ela, ligando-me mais ainda à sua
existência. Quando percebi isso, orei por mim e pela mulher dia e noite e
desfiz o nó. Abandonei os sintomas e sentimentos menores, como se nunca
houvessem acontecido. Soa piegas, mas Cristo tinha razão: só o amor é real,
somente ele permanece.

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