quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Mensagem divina



Abaixo, deixo uma mensagem que canalizei diante de um templo religioso em Portugal, em 2010. Nessa época, não estava muito bem e pensava demasiadamente na morte. Mas ao ouvir essa voz, entrei em grande êxtase religioso e, de vez em quando, se eu me aquietar bastante, ainda consigo ouvi-la. Senti que essa voz era divina e me pertencia, vinha do meu mestre interior, como chama a Rosacruz, ou da centelha divina que habita todo e qualquer ser humano. Leiam sem racionalizar muito e sintam essas palavras, porque são destinadas a todos nós:




“Você é luz que se expande e brilha sem cessar. É fogo, água, mas também escuridão. Nunca cessas; não há fim para ti. O mundo está aos teus pés, só tens de voá-lo e ele se derramará sobre ti, sobre o teu ventre, como uma luz divina. É do ventre que tudo nasce.

Se a luz se manifesta, é sinal de que tens de ouvi-la. E tu és essa luz; ela é tua. És fogo sem cessar. Divina és em tua esplêndida sabedoria.

Nada mais em ti pode te dar medo: és a luz que nunca cessa. Nada pode te dominar: és uma com o todo. Sempre que tiveres medo, basta olhar e eu estarei aqui. Eu sou a parte de ti que nunca cessa e que estará sempre contigo.

Você é um ser divino, destinado à iluminação. Tua única função no mundo é brilhar. E se sorrir, brilharás mais ainda."

-        Quem é você? - perguntei.
-        Sou a tua consciência.
-        Porque essa mensagem, esse dom? Há algo que devo dizer aos homens?
-        Sim, há algo importante a dizer a eles: que eles nunca morrem. A morte não é o fim; é um fim. Nada se acaba. A morte é a passagem para um tempo mais feliz, para outro entendimento, que te conduz ao fim de todos os mistérios. A morte é um santuário. Ela virá a ti e estarás mais completa e plena do que jamais esteve. Tu és o encanto.
-        Então a morte é mesmo bela? - confirmei.
-        Sim. A morte, em si mesma, é bela, pura e cheia de vida. Nada tens a temer.
-        O que há para se ver lá?
-        A consciência.
-        Do que?
-        Do que somos. Isso é tudo o que você é. O sol nunca cessa. Não se esqueça disso.
-        Não me esquecerei, sou a luz que nunca cessa. Mas como faço para manter esse estado de plenitude que vivo agora, para manter a minha vida assim?
-        Segue o caminho do bem, do amor, pratique o amor através das suas ações. Olha o sol e vê-te.
-        Mas tudo isso parece vago...como saber se não voltarei a ter medo?
-        Creia. Creia no que tu és. Creia na infinitude do teu ser e assim será. Não há nada a temer, pois não há um fim: tudo ressuscita em si mesmo. O seu poder nunca cessa, a sua força é infinita. A vida continua sempre. És a luz que sempre brilha. E eu estarei sempre contigo, pois eu sou essa luz. Sou a força divina que você acessa. A luz do dia, a escuridão da noite. Sou tudo. Não há nada que te faça temer, a não ser a Deus. O que temes é Deus, é essa força, entende? Acredita em ti, no que tu és. És uma bênção.

"Veja, nada tem fim. Você sempre foi e sempre será. Estarei sempre contigo. Chorarei o teu pranto e serei a tua luz. Porque Deus é luz e é noite, tudo se transforma. Nada permanece.”

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Albertina



Albertina devia ter mais de 70 anos. Apresentou-se de cabelos esbranquiçados compridos,  vestido leve e olhos azuis, e vi diante de mim uma feiticeira. A fala era firme, os propósitos, mais ainda. Sabia que havia sido guerrilheira na ditadura militar, que havia sofrido das piores torturas que alguém já ouviu falar e sido exilada na Europa. Sabia de uma história marcada pela certeza de querer viver. Mas era mais do que isso: devido ao enorme sofrimento, Albertina acabou atingindo a iluminação, ou o que os cristãos chamam de santidade. Ela não sabia como descrever bem o fenômeno, até porque palavras lhe interessam muito pouco. “Vou te contar sobre o meu despertar”, anunciou. Eu não imaginava do que se tratava.

Quando um pobre mortal nos fala sobre um “despertar”, os místicos não imaginam tratar-se de iluminação, porque raríssimos são aqueles que chegaram ao nível de Buda, Cristo, Lao-tsé ou alguns monges tibetanos. Pensamos numa forma de redenção, como alguns seguidores de igreja episcopais que cometem crimes e “encontram a Jesus”, ou qualquer forma de sofrimento alheio que consegue ser transcendido através de uma crença. Mas Albertina não tinha crença alguma, resistia até em pronunciar a palavra Deus. “Está viciada, perdeu o sentido”, comentava. Eu tentava outros nomes: o cosmos, o grande espírito, a existência? Ela balançava a cabeça: “não tente entender pelas palavras, elas corrompem tudo, estragam tudo”, insistia. Mas eu, viciada, continuava buscando palavras e definições em silêncio, enquanto ela se emocionava cada vez mais ao narrar as passagens da sua vida. "A letra mata, o espírito vivifica", diria São Paulo.

O despertar foi uma explosão, com cerca de 35 anos. Uma explosão interna!, contou, maravilhada. Diante da minha estranheza, narrou rapidamente a fase de torturas no quartel, o exílio e a prisão na Espanha ao lado do amado, um psiquiatra. O despertar começou ainda quando lhe entregaram um telegrama na prisão, contando que seu namorado estava à beira da morte. Albertina já havia chorado muitas dores desde as punições da ditadura, mas nunca a esse ponto. Sabemos que muitas vezes a iluminação ocorre não só como Buda a descreve, em meditação profunda, mas sobretudo através de um sofrimento imensurável, como nos corredores de uma cadeira elétrica. É como se o sofrimento descomunal fosse uma espécie de purificação. Por algum motivo que ninguém dos funcionários de uma prisão consegue descrever, o condenado senta-se à cadeira serenamente, como se nada estivesse acontecendo e morre feliz e em silêncio; relatos desse tipo ocorrem mais do que se possa imaginar, e conheço um parecido sobre um fugitivo na Segunda Guerra. 

Um desespero brutal diante da morte do amado, somado a tudo que de terrível vinha lhe ocorrendo, provocou em Albertina um choro sem fim. Implorou a Deus que levasse a ela no lugar do namorado, com toda a sinceridade e chorou durante muito, muito tempo. Chorou com tanta força, sentindo uma forte dor na barriga – o plexo solar - que de tanto chorar, diz ela, aconteceu-lhe “a explosão”. Albertina ouviu um ruído enorme dentro da cabeça, como se algo tivesse realmente explodindo, o que lhe deu pavor. Mas ao se recuperar do choro e do susto, olhou ao redor e tudo havia mudado. A prisão, as paredes e as pessoas, tudo havia ganhado uma cor mais vibrante e bela, e a sensação era de que não havia mais separação entre si mesma e o mundo exterior; um enorme amor por tudo o que havia – pessoas, objetos, animais - tomou conta dela de forma extrema e inabalável, como acontecem nesses casos. Importante lembrar que esse amor é o que diferencia uma experiência religiosa da verificada quando se toma algo como um LSD, em que as coisas ficam mais vibrantes e a realidade, mais elástica por um tempo, mas não existem sinais desse amor incondicional pelo todo. A sensação de “voltar para casa”, uma espécie de reconhecimento, é também  imprescindível nos casos de iluminação. 

Albertina amava - e era - tudo o que existia. Ao olhar suas próprias mãos, seu corpo, o amor cresceu ainda mais. “Pela primeira vez, eu vi quem eu era, e eu era algo tão lindo! Tão lindo!”, repetia, emocionada. Eu bem sabia, principalmente através de pequenas experiências místicas, que tudo o que nos rodeia modifica-se de acordo com a nossa percepção; que não é algo dado, que a realidade de fato não existe e é moldada de acordo com o observador. Albertina também se referiu à perda das noções de tempo e espaço como os conhecemos, que os místicos aprendem que são ilusórias, produtos da mente humana para apreender o universo. A prova disso está numa meditação profunda, quando um minuto costuma parecer muitíssimo tempo e o espaço desaparece. “O tempo é a mente”, ensinou.

Vivendo apenas o presente, momento a momento, Albertina ganhou as ruas da Espanha. Olhava cada coisa, cada pessoa como parte dela mesma. “Eu era a noite, a lua, e ficava sendo a lua; depois eu era o sol e ficava sendo o sol, os animais, era tantas coisas! ”, dizia. Esse estado de graça, ou de maravilhamento pode durar um tempo enorme, e não existe nenhuma forma de resistência. Tudo o que nos faz resistir e temer, explicam os místicos, vem do medo mais fundamental: o medo da morte, do aniquilamento do ego, de que acabe a sua história de vida, que acreditamos ser o que somos. “O homem não é sua memória, não é o seu passado!”, frisou. O iluminado Eckhart Tolle conta que abandonou seu apartamento, tudo o que tinha e ficou dois anos perambulando pelos parques e ruas do Canadá. Ele dizia que sua noção de identidade havia se fragmentado; ele amava tudo o que existe e não havia mais nenhum temor em relação a nada. Albertina acrescentou que sequer havia fome nela, era coisa rara. “As pessoas não sabem disso, mas até a fome é um condicionamento da mente!”, revelou. Impossível não lembrar de toda a tradição do zen-budismo e da parábola em que Cristo se refere aos lírios do campo como coisas belas que crescem com pouquíssimas necessidades e sem nenhum esforço.

Com muita fome de viver, Albertina foi de carona até a Suíça. Seu namorado psiquiatra a reencontrou naquele estado de maravilhamento e diagnosticou-a com esquizofrenia. Albertina, puro amor incondicional, não ofereceu resistência. Levada ao médico, que ficou surpreso e calado com o relato, exclamou: “Meu senhor, isso não é esquizofrenia…é consciência cósmica!” O namorado psiquiatra não entendeu. Pediu encarecidamente que Albertina fosse internada, e ela acabou por ficar na ala de idosos abandonados do hospital. Ela afirma que não poderia ter sido mais lindo, ver senhoras tão alegres com a sua presença.
De volta aos lugares e pessoas da guerrilha, era difícil se adaptar. Todas aquelas pessoas concentradas em livros de Marx e socialismo que ela tanto amou, despertaram-lhe compaixão. “Eram pessoas mortas, que não entendiam que era preciso buscar o seu próprio caminho e abandonar os dos outros”, dizia. Outras coisas, com os novos olhos, pareciam-lhe muito mais vivas. O céu, todos os pequenos objetos, tudo era visto como “uma soma de pontinhos” que ela conseguia ver um por um, e que eram muito vivos! Átomos, moléculas podiam ser enxergados facilmente sem nenhum microscópio. Também eram muito vivas as carnes de animais. Mesmo bifes bem-passados se mexiam, saltavam dos pratos das pessoas, o que fez Albertina tornar-se vegetariana para sempre.

Certo dia, ela dormiu diante de uma foto de Che Guevara, e num piscar de olhos, recebeu um raio ou descarga, sendo transportada para uma outra dimensão num só golpe. Foi quando ela esteve mais próxima de Deus em toda a sua vida. “Eu estava numa imensidão, uma imensidão linda e sabia que aquele era O Pai”, dizia, resistindo a chamá-lo de Deus por tantos enganos a seu respeito. Esse foi o único momento em que Albertina chorou diante de mim e do meu marido, dois meros conhecidos, na mesa da casa da minha irmã. “Foi então que eu entendi quem era O Pai, e o porquê do nosso sofrimento. Todos nós sentimos, no fundo, muita saudade dele  e essa é a razão do nosso vazio”, descreve em lágrimas. Ela conta que quando entrou na imensidão, ouviu alguém dizer “soltem as mãos!”, frase que demorou anos para entender. Hoje Albertina acredita que se tratava da prisão ou condicionamento provocados pelos diálogos que acontecem no nosso cérebro. “Estamos todos presos nas mentes uns dos outros e não conseguimos sair!”, explica. Sabemos que o ego nos impede de nos amarmos verdadeira e incondicionalmente e que nos apegamos ao que pensamos possuir, como “meu marido”, “meu filho”, "meu trabalho". Albertina afirma que só depois do despertar, entendeu que nunca havia amado ninguém pelo que era: “Eu pensava que sim, mas não amava o meu filho, nem a ninguém. A mente não ama, ela possui”, esclarece.

De volta ao Brasil, a ex-guerrilheira foi obrigada a narrar serenamente aos militares suas idas e vindas pela Europa e por fim, sua experiência mística. Os homens ficaram impressionados. Um deles afirmou que outro preso viveu a mesma coisa durante um ritual de tortura. Altas patentes do exército decidiram procurá-la em segredo, para tirar dúvidas do relato. “Então de nada vale o exemplo?”, perguntou, atônito, um alto militar na surdina. Ela respondeu que cada um deve buscar por si mesmo o seu caminho.

Albertina encontrou o seu lugar no interior da Bahia, em contato com a natureza. Anos se passaram e ela estreitou seu contato com os animais, adotando vários cães em sua casa. Ela diz que eles são puros e sabem amar verdadeiramente, basta que os olhemos nos olhos. Sobre o despertar, que ainda hoje está vivo dentro dela e a faz chorar de emoção, declara: “Ando precisando de uma nova explosão!", acrescentando que todos deveriam ser despertados como ela foi. Conhecer sua história de vida pode ser o primeiro passo para acreditar que um dia chegaremos lá.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

O homem mais feliz do mundo



Em Laboratórios de todo mundo, o estudo do cérebro entrou numa fase detalhada que permite hoje se chegar a conclusões sobre o grau de felicidade das pessoas e estes esforços levaram os pesquisadores a surpreendentes análises comparativas.
Nos acostumamos (fomos condicionados) a crer que a felicidade é uma espécie de competição olímpica onde é vitorioso quem possui mais, domina, comanda e sente através de coisas.
Segundo um recente experimento científico o homem mais feliz do Mundo hoje é um indivíduo que vive em uma cela de dois por dois, não é dono nem executivo de nenhuma companhia da Fortune 500, não vive dependente de celular, nem dirige uma BMW, não veste roupa de Armani nem Hugo Boss, desconhece tanto o Prozac como o Viagra ou Ecstasy e sequer toma Coca-Cola.
Em suma: O Homem Mais Feliz do Planeta é um homem que prescinde de dinheiro, competições profissionais, vida sexual e popularidade. Seu nome é Matthieu Ricard, francês, ocidental por nascimento, budista por convicção e o único entre centenas de voluntários da pesquisa cujo cérebro não só alcançou a máxima qualificação de felicidade prevista pelos métodos científicos, como superou por completo o “felizômetro”.

Os 256 sensores e dezenas de ressonâncias magnéticas aos quais Ricard se submeteu ao longo de vários anos, para validar o experimento não mentem:
Ali onde o nível dos simples mortais é muito alto – estresse, medo, frustração – no cérebro de Ricard, essas sensações simplesmente não existem. Mas ao contrário, onde a maioria demostrou baixíssimos níveis – Satisfação e Plenitude Social – Ricard superou todos os índices, dando origem ao titulo de “Homem Mais Feliz do Planeta”. Os cientistas nunca encontraram alguém “tão feliz” e afirmam: em medições quantificáveis, Ricard é mesmo o Homem mais feliz da terra.
O paradoxo do caso não é o fato de ser um homem tão feliz e sim como chegou a sê-lo, se desprendendo de tudo aquilo em que os ocidentais supõem ser a raiz da felicidade: dinheiro, posses, consumo, consumo, consumo…
E não é que Ricard seja alheio a tudo isso. Ele fez Doutorado em genética molecular e trabalhou ao lado do Prêmio Nobel de Medicina François Jacob. Além de ser filho de Jean François Revel (recém-falecido), um famoso filósofo e membro Emérito da Academia Francesa.

Mas nada o deslumbrava e não se sentia pleno.
Com o mundo do sucesso material a sua frente, e, a ponto de converter-se numa eminência científica, um dia, fortemente impressionado com a filosofia oriental, decidiu mudar o rumo da sua vida. Dedicou-se à meditação, tornou-se discípulo do mestre tibetano Rinpoche, foi para o Himalaia, adotou o caminho dos monges e iniciou uma nova vida a partir do zero.
Hoje é um dos maiores estudiosos do clássico tibetano, é assessor e braço direito do DALAI LAMA e tem doado milhões de euros – produto da venda de seus livros – a monastérios e obras de caridade.
Porém isso não é a causa, mas a consequência de sua felicidade.
A causa para esse resultado devemos buscar em outro lugar, diz o chefe do estudo, Richard J. Davidson, e não é nenhum mistério ou graça divina:
Se chama “plasticidade mental”. É a capacidade humana de modificar fisicamente o cérebro por meio dos pensamentos que escolhemos ter. Da mesma forma que os músculos do corpo, o cérebro desenvolve e fortalece os neurônios mais utilizados. Os pensamentos negativos provocam maior atividade no córtex direito do cérebro e consequentemente maior ansiedade, depressão e hostilidade. Em outras palavras: maior infelicidade auto gerada. Por outro lado, quem desenvolve bons pensamentos e também uma visão amorosa da vida, exercita o seu córtex esquerdo, elevando as emoções prazerosas e a felicidade.
Ainda do Dr. Davidson: “o resultado desse estudo pode mudar por completo a visão que temos do cérebro humano. São enormes as suas implicações.
“Entre estados de meditação, as ondas cerebrais permanecem intensas sugerindo que é possível treinar o cérebro a controlar as emoções, mudando a estrutura da própria mente”. A meditação frequente pode modificar as funções cerebrais de forma durável.
“Tudo indica que o cérebro pode ser treinado na idade adulta e até alterar sua organização interna, algo que experiências com músicos também já tinham demonstrado”.


Ricard adverte que não se trata de decidir ver a vida cor de rosa, de um dia para o outro, mas de trabalhar sistematicamente para debilitar os músculos da infelicidade, que tanto teimamos em fortalecer, acreditando sermos vítimas do passado, dos pais ou do nosso meio. E, paralelamente, começar a exercitar os músculos mentais que nos fazem absoluta e diretamente responsáveis por nossa própria felicidade.
Admite que seu caminho não seja mais do que um entre muitos e afirma que ser feliz necessariamente passa pela mudança de deixarmos de culpar aos outros pela nossa infelicidade e buscarmos a causa em nossa própria mente.
“Viver as experiências que a vida nos oferece é obrigatório, porém sofrer com elas ou desfrutá-las é opcional”.

Fonte: http://www.matthieuricard.org/en/index.php/about/ , http://photos.news.wisc.edu/photos/9012/view , http://sobrebudismo.com.br/habitos-da-felicidade-matthieu-ricard/, http://jamlab365.blogspot.com.br/2011/07/re-inventing.html

quinta-feira, 28 de março de 2013

Swedenborg segundo Borges

EMANUEL SWEDENBORG, segundo Borges

Jorge Luis Borges
Buenos Aires, 24/08/1899 — Genebra, 14/06/1986
Voltaire disse que o homem mais extraordinário registrado pela história foi Carlos XII. Eu diria: talvez o homem mais extraordinário – a admitirmos tais superlativos – tenha sido o mais misterioso dos súditos de Carlos XII, Emanuel Swedenborg. Quero dizer algumas palavras sobre ele e, em seguida, falar de sua doutrina, que é o que mais nos interessa.
Emanuel Swedenborg nasceu em Estocolmo, no ano de 1688, e morreu em Londres, em 1772. Uma longa vida, mais longa ainda se pensarmos nas breves vidas da época. Quase conseguiu completar cem anos. Sua vida divide-se em três períodos. Esses períodos são de intensa atividade. Cada um deles dura – já se calculou – vinte e oito anos. No início, temos um homem dedicado ao estudo. O pai de Swedenborg era um bispo luterano, e Swedenborg foi educado no luteranismo, cuja pedra angular, como se sabe, é a salvação pela graça – em que Swedenborg não acredita. Em seu sistema, na nova religião que pregou, fala-se da salvação pelas obras, embora estas não sejam, certamente, missas nem cerimônias; são obras verdadeiras, obras nas quais se insere o homem em sua totalidade, quer dizer, seu espírito e, o que é ainda mais curioso, também sua inteligência.
Pois bem, Swedenborg começa como presbítero e depois se interessa pelas ciências. Estas lhe interessam, sobretudo, de modo prático. Mais tarde, descobriu-se que ele se antecipara a muitas invenções ulteriores. Por exemplo, a hipótese nebular de Kant e de Laplace. Em seguida, a exemplo de Leonardo da Vinci, Swedenborg desenhou um veículo para andar pelo ar. Ele sabia que era inútil, mas nele via um possível ponto de partida para aquilo que hoje denominamos aviões. Também desenhou veículos para andarem debaixo      d´água, como havia previsto Francis Bacon. Depois, interessou-se – fato também singular – pela mineralogia. Foi assessor para assuntos de minas em Estocolmo. Interessou-se também pela anatomia. E, como Descartes, interessou-lhe o ponto exato em que o espírito se comunica com o corpo.
Disse Emerson: "Lamento dizer que ele nos deixou cinqüenta volumes". Cinqüenta volumes, dos quais vinte e cinco, pelo menos, são dedicados à ciência, à matemática, à astronomia. Recusou-se a ocupar a cátedra de Astronomia na Universidade de Upsala, pois repudiava tudo que fosse teórico. Era um homem prático. Foi engenheiro militar de Carlos XII, que o prestigiou. Os dois se relacionaram muito: o herói e o futuro visionário. Swedenborg idealizou uma máquina para transportar navios por terra, em uma daquelas guerras quase míticas de Carlos XII, sobre as quais escreveu tão esplendidamente Voltaire. Transportaram os barcos de guerra ao longo de vinte milhas.
Mais tarde, mudou-se para Londres, onde estudou as artes do carpinteiro, do ebanista, do tipógrafo, do fabricante de instrumentos. Também desenhou mapas para os globos terrestres. Ou seja, foi um homem eminentemente prático. A propósito, recordo uma frase de Emerson: "Nenhum homem levou uma vida mais real que Swedenborg". É necessário que saibamos isso, que juntemos toda essa sua obra cientifica e prática. Foi também um político – foi senador do reino. Aos cinqüenta e cinco anos já havia publicado uns vinte e cinco volumes sobre mineralogia, anatomia e geometria. 
Aconteceu, então, o fato capital de sua vida. O fato capital de sua vida foi uma revelação. Recebeu essa revelação em Londres, precedida de sonhos, registrados em seu diário. Não foram publicados, mas sabe-se terem sido sonhos eróticos.
E, depois, veio a visitação, que alguns consideraram um acesso de loucura. Isto, porém, é negado pela lucidez de sua obra, pelo fato de que, em nenhum momento, nós nos sentimos diante de um louco. 
Escreve sempre com grande clareza, quando expõe sua doutrina. Em Londres, um desconhecido que o havia seguido pela rua entrou em sua casa e disse-lhe que era Jesus, que a Igreja estava em decadência – como a Igreja judaica, quando surgiu Jesus Cristo – e que ele tinha o dever de renovar a Igreja, criando uma terceira Igreja, a de Jerusalém. Tudo isso parece absurdo, inacreditável, mas temos a obra de Swedenborg. E essa obra é muito vasta, escrita em um estilo muito tranqüilo. Ele não justifica nada, em momento algum. Aqui, cabe recordar aquela frase de Emerson, que diz: "Os argumentos não convencem ninguém". Swedenborg expõe tudo com autoridade, com tranqüila autoridade.
Pois bem, Jesus disse-lhe que o encarregava da missão de renovar a Igreja e que lhe seria permitido visitar o outro mundo, o mundo dos espíritos, com seus inumeráveis céus e infernos. Que seu dever era estudar a Sagrada Escritura. Antes de escrever algo, ele se dedicou, ao longo de dois anos, ao estudo da língua hebraica, pois queria ler os textos originais. Voltou a estudar os textos e neles acreditou haver encontrado o fundamento de sua doutrina, um pouco à maneira dos cabalistas, que encontram razões para o que procuram no texto sagrado.
Analisemos, antes de mais nada, sua visão do outro mundo, sua visão da imortalidade pessoal, na qual acreditou, e veremos que toda ela se baseia no livre-arbítrio. Na Divina Comédia, de Dante – essa obra tão bela literariamente –, o livre-arbítrio cessa no momento da morte. Os mortos são condenados por um tribunal e merecem o céu ou o inferno. Na obra de Swedenborg, ao contrário, nada disso ocorre. Ele nos diz que, ao morrer, o homem não se dá conta de haver morrido, já que tudo que o circunda continua igual. Encontra-se em sua casa, os amigos o visitam, ele percorre as ruas de sua cidade, não imagina, enfim, que morreu. Mas logo começa a notar algo. Começa a notar algo que a princípio o alegra e que, depois, o assusta: tudo, no outro mundo, é mais vívido que neste.
Sempre imaginamos o outro mundo de modo nebuloso, mas Swedenborg nos diz que ocorre exatamente o contrário, que as sensações são muito mais vívidas no outro mundo. Nele há, por exemplo, mais cores. E, se imaginamos que os anjos, no céu de Swedenborg, como quer que se encontrem, estão sempre de rosto voltado para o Senhor, podemos igualmente imaginar uma espécie de quarta dimensão. Em todo caso, Swedenborg repete que o outro mundo é muito mais vívido que este. Nele há mais cores, há mais formas. Tudo é mais concreto, tudo é mais tangível que neste mundo. "Tanto é assim" – diz ele – "que este mundo, comparado com o mundo que vi em minhas inumeráveis andanças pelos céus e pelos infernos, é como uma sombra. É como se vivêssemos na sombra."
Aqui lembro uma frase de Santo Agostinho. Em Civitas Dei, Santo Agostinho diz que, sem dúvida, o gozo sensual era mais forte no Paraíso do que aqui, porque não se pode supor que a queda tenha melhorado alguma coisa. E Swedenborg diz o mesmo. Ele fala dos gozos carnais nos céus e nos infernos do outro mundo e diz que são muito mais vívidos que os daqui. O que acontece quando um homem morre? No princípio, não se dá conta de haver morrido. Prossegue em suas ocupações habituais, recebe a visita dos amigos, conversa com eles. E, depois, pouco a pouco, os homens percebem, assustados, que tudo é mais vívido, que há mais cores. O homem pensa: "Eu vivi todo o tempo na sombra; agora eu vivo na luz". E isso pode alegrá-lo por um momento.
Em seguida, dele se aproximam desconhecidos, que com ele conversam. E esses desconhecidos são anjos e demônios. Swedenborg diz que os anjos não foram criados por Deus, que os demônios não foram criados por Deus. Os anjos são homens que ascenderam à condição angelical; os demônios são homens que desceram à condição demoníaca. De modo que toda a população dos céus e dos infernos é composta de homens, e estes homens são, agora, anjos e são, agora, demônios. Pois bem, do morto se acercam anjos. Deus não condena ninguém ao inferno. Deus quer que todos os homens se salvem. Ao mesmo tempo, no entanto, Deus concedeu ao homem o livre-arbítrio, o terrível privilégio de condenar-se ao inferno ou de merecer o céu. Quer dizer, quanto à doutrina do livre-arbítrio, que, segundo a doutrina ortodoxa, cessa após a morte, Swedenborg a conserva até depois da morte. Há, então, uma região intermediária, a região dos espíritos. Nela estão os homens, as almas daqueles que morreram, e eles conversam com anjos e com demônios.
Então, chega aquele momento que pode durar uma semana, pode durar um mês, pode durar muitos anos; não sabemos quanto tempo pode durar. Nesse  momento, o homem resolve ser um demônio, ou vir a ser um demônio ou um anjo. Em um dos casos merece o inferno. Essa região é uma região de vales e também de fendas. Essas fendas podem ser inferiores, que comunicam com os infernos, ou fendas superiores, que comunicam com os céus. E o homem procura, conversa e permanece na companhia daqueles de quem gosta. Se tem temperamento demoníaco, prefere a companhia dos demônios; se tem temperamento angelical, a companhia dos anjos. Se quiserem uma descrição de tudo isso – por certo muito mais eloqüente do que a minha –, vocês a encontrarão no terceiro ato de Man and Superman, de Bernard Shaw.
É curioso que Shaw jamais mencione Swedenborg. Creio que ele chegou a fazê-lo por intermédio de Blake, ou através de sua própria doutrina. Porque no sistema de John Tanner é mencionada a doutrina de Swedenborg, mas sem que este seja nomeado. Presumo não ter havido desonestidade por parte de Shaw, mas sim que sua crença tenha sido sincera. Presumo que Shaw tenha chegado às mesmas conclusões por intermédio de William Blake, que ensaia a doutrina da salvação anunciada por Swedenborg.
Bem, o homem, então, conversa com anjos, o homem conversa com demônios, e sente-se atraído mais por uns que por outros. Isso, segundo seu temperamento. Aqueles que se condenam ao inferno – já que Deus não condena ninguém – sentem-se atraídos pelos demônios. Agora, o que são os infernos? Os infernos, segundo Swedenborg, têm vários aspectos. O aspecto que teriam para nós ou para os anjos. São áreas pantanosas, áreas em que há cidades que parecem ter sido destruídas por incêndios; mas aí os réprobos sentem-se felizes. Sentem-se felizes a seu modo, ou seja, estão cheios de ódio e não há um monarca nesse reino; continuamente estão conspirando uns contra os outros. É um mundo de baixa política, de conspiração. Isso é o inferno. A seguir, temos o céu, que é o oposto, o que corresponde simetricamente ao inferno. Segundo Swedenborg – e esta é a parte mais difícil de sua doutrina –, haveria um equilíbrio entre as forças infernais e as forças angelicais, necessário para que o mundo subsista. Nesse equilíbrio é sempre Deus que manda. Deus permite que os espíritos infernais permaneçam no inferno, pois só no inferno eles se sentem felizes. E Swedenborg nos relata o caso de um espírito demoníaco que ascende ao céu, aspira o perfume do céu, ouve as conversas do céu, e tudo lhe parece horrível. O perfume lhe parece fétido, a luz lhe parece negra. Então, ele volta para o inferno, porque só no inferno é feliz. O céu é o mundo dos anjos. E Swedenborg acrescenta que o inferno todo tem a forma de um demônio; e o céu, a forma geral de um anjo. O céu compõe-se de sociedades de anjos, e aí está Deus. E Deus é representado pelo sol.
De modo que o sol corresponde a Deus; e os piores infernos são os infernos ocidentais e os do norte. Em compensação, a leste e ao sul os infernos são mais suaves. Ninguém está condenado a eles. Cada um procura a sociedade que quiser, procura os companheiros que quiser, e o faz segundo o apetite que dominou sua vida. Aqueles que chegam ao céu têm uma noção equivocada. Pensam que no céu rezarão continuamente; e é-lhes permitido rezar, mas, ao fim de poucos dias ou semanas, eles se cansam: dão-se conta de que isso não é o céu. Depois, adulam Deus; louvam-No. Deus não gosta de ser adulado. E essa gente também se cansa de adular Deus. Imaginam, certamente, que poderão ser felizes conversando com seus entes queridos; ao fim de certo tempo, porém, percebem que os entes queridos e os heróis ilustres podem ser tão entediantes na outra vida como nesta. Cansam-se disso e, então, entram na verdadeira obra do céu. E, neste ponto, recordo um verso de Tennyson, em que ele diz que a alma não deseja assentos dourados; simplesmente, deseja que lhe seja concedido o dom de continuar e de não cessar. Quer dizer, o céu de Swedenborg é um céu de amor e, acima de tudo, um céu de trabalho, um céu altruísta. Cada um dos anjos trabalha para os outros; todos trabalham para os demais. Não é um céu passivo. Tampouco é uma recompensa. Se alguém tem temperamento angelical, alcança esse céu e nele se sente bem. Mas há outra diferença muito importante no céu de Swedenborg: seu céu é eminentemente intelectual. Swedenborg narra a história, patética, de um homem que durante sua vida se propôs ganhar o céu. Para tanto, renunciou a todos os gozos sensuais.
Retirou-se à tebaida. Aí, abstraiu-se de tudo. Rezou, pediu o céu. Quer dizer, foi se empobrecendo. E o que acontece quando ele morre? Quando morre, chega ao céu, e no céu não sabem o que fazer com ele. Ele tenta acompanhar as conversas dos anjos, mas não as compreende. Tenta aprender as artes. Tenta ouvir tudo. Tenta aprender tudo e não consegue, porque se empobreceu. É, apenas, um homem justo e mentalmente pobre. Concedem-lhe, então, como dom, o poder idealizar uma imagem: o deserto. No deserto, ele rezava como rezava na terra, mas sem se separar do céu, pois sabia que se tornara indigno do céu, por sua penitência, por haver empobrecido sua vida, por se haver negado os gozos e os prazeres da vida, o que também é um mal. Essa é uma inovação de Swedenborg, porque sempre se pensou que a salvação tem caráter ético. Quer dizer, se um homem é justo, ele se salva. "Dos pobres de espírito é o reino dos céus", etc. É o que comunica Jesus. Mas Swedenborg vai mais longe. Diz que isso não basta, que um homem tem de salvar-se também intelectualmente. Ele imagina o céu, sobretudo, como uma série de conversas teológicas entre os anjos. E, se um homem não pode acompanhar essas conversas, é indigno do céu. Assim, deve viver sozinho. Mas depois virá William Blake, que acrescenta uma terceira salvação. Diz que podemos, que temos de nos salvar também por meio da arte. Blake explica que também Cristo foi um artista, já que não pregava por meio de palavras, mas de parábolas. E as parábolas são, é claro, expressões estéticas. Quer dizer, a salvação se daria pela inteligência, pela ética e pelo exercício da arte.  Neste ponto recordamos algumas das frases em que Blake, de algum modo, suavizou as longas sentenças de Swedenborg. Quando diz, por exemplo: "O bobo não entrará no céu, por mais santo que seja". Ou, ainda: "É preciso prescindir da santidade; é preciso se investir de inteligência". 
De modo que temos esses três mundos. Temos o mundo do espírito e, em seguida, ao fim de certo tempo, um homem terá merecido o céu, um homem terá merecido o inferno. O inferno é, na verdade, regido por Deus, que necessita desse equilíbrio. Satanás é, simplesmente, o nome de uma região. O demônio é, simplesmente, um personagem mutante, já que todo o inferno é um mundo de conspirações, de pessoas que se odeiam, que se juntam para atacar outra.
Depois Swedenborg passa a conversar com diferentes pessoas no paraíso, com diferentes pessoas nos infernos. Tudo isso lhe é permitido, para que funde a nova Igreja. E o que faz Swedenborg? Não faz pregações; publica livros, anonimamente, escritos em sóbrio e árido latim. E difunde tais livros. Assim transcorrem os últimos trinta anos da vida de Swedenborg. Vive em Londres. Leva uma vida muito simples. Alimenta-se de leite, pão, legumes. Às vezes, chega um amigo da Suécia, quando, então, ele se permite uns dias de descanso. Quando foi à Inglaterra, quis conhecer Newton, porque lhe interessava muito a nova astronomia, a lei da gravidade. Mas nunca chegou a conhecê-lo. Interessou-se muito pela poesia inglesa. Em seus escritos menciona Shakespeare, Milton e outros. Tece-lhes elogios por sua imaginação; quer dizer, esse homem tinha senso estético. Sabemos que, quando percorria os países – porque viajou pela Suécia, Inglaterra, Alemanha, Áustria, Itália –, visitava as fábricas, os bairros pobres. Apreciava muito a música. Era um cavalheiro daquela época. Chegou a ser um homem rico. Seus criados moravam no andar térreo de sua casa, em Londres (a casa foi demolida recentemente), e o viam conversando com os anjos ou discutindo com os demônios. No diálogo, jamais quis impor suas idéias. Naturalmente não permitia que zombassem de suas visões, tampouco queria impô-las: antes procurava desviar a conversa desses temas.
Há uma diferença essencial entre Swedenborg e os outros místicos. No caso de San Juan de la Cruz, temos descrições muito vívidas do êxtase. Temos o êxtase referido em termos de experiências eróticas ou com metáforas de vinho. Por exemplo, um homem que se encontra com Deus, e Deus é igual a si mesmo. Há um sistema de metáforas. Na obra de Swedenborg, ao contrário, não há nada disso. É a obra de um viajante que percorreu terras desconhecidas e que as descreve tranqüila e minuciosamente. Por isso, sua leitura não é exatamente divertida. É assombrosa e gradativamente divertida. Li os quatro volumes de Swedenborg que foram traduzidos para o inglês e publicados pela Everyman´s Library. Disseram-me que existe uma tradução em espanhol, uma seleção, publicada pela Editora Nacional. Vi alguns registros estenográficos sobre ele, sobre toda aquela esplêndida conferência feita por Emerson. Emerson proferiu uma série de conferências sobre homens representativos. Chamou-as: "Napoleão, ou o homem do mundo; Montaigne, ou o cético; Shakespeare, ou o poeta; Goethe, ou o homem de letras; Swedenborg, ou o místico". Esta foi a primeira introdução que li à obra de Swedenborg. Essa conferência de Emerson, que é memorável, em última análise, não está inteiramente de acordo com Swedenborg. Havia algo que lhe desagradava: talvez por Swedenborg haver sido tão minucioso, tão dogmático. Porque Swedenborg insiste várias vezes nos mesmos fatos. Repete a mesma idéia. Não procura analogias. É um viajante que percorreu um país muito estranho. Que percorreu os inumeráveis céus e infernos, e que os descreve. Vejamos, agora, outro tema de Swedenborg: a doutrina das correspondências. Tenho para mim que ele idealizou tais correspondências para encontrar suas doutrinas na Bíblia. Ele diz que cada palavra, na Bíblia, tem pelo menos dois sentidos. Dante acreditava haver quatro sentidos para cada passagem.
Tudo deve ser lido e interpretado. Por exemplo, se se fala da luz, a luz é, para ele, uma metáfora, símbolo evidente da verdade. O cavalo significa a inteligência, pelo fato de o cavalo nos transportar de um lugar a outro. 
Swedenborg possui todo um sistema de correspondências. Nisto ele se parece muito com os cabalistas.
Depois disso, ele chega à idéia de que no mundo tudo se baseia em correspondências. A criação é uma escrita secreta, uma criptografia que devemos interpretar. Que todas as coisas são, realmente, palavras, salvo as que não conseguimos compreender e que aceitamos literalmente.
Lembro aquela terrível sentença de Carlyle, que leu Swedenborg, não sem certo proveito, e que diz: "A história universal é uma escrita que temos de ler e escrever continuamente". E é verdade: continuamente presenciamos a história universal e somos atores dela. E também somos letras, também somos símbolos: "Um texto divino no qual nos escrevem". Tenho, em casa, um dicionário de correspondências. Nele pode-se procurar qualquer palavra da Bíblia e verificar qual o sentido espiritual que Swedenborg lhe atribuiu. Sem dúvida, ele acreditou, acima de tudo, na salvação pelas obras. Na salvação pelas obras não apenas do espírito, mas também da mente. Na salvação pela inteligência. Para ele, o céu é, antes de mais nada, um céu de extensas considerações teológicas. Os anjos, acima de tudo, conversam. Mas o céu é, igualmente, pleno de amor. Admite-se o casamento no céu. Admite-se tudo que existe de sensual neste mundo. Ele não quer negar nem empobrecer nada.
Atualmente há uma igreja swedenborgiana. Creio que em algum lugar dos Estados Unidos existe uma catedral de cristal. E existem também alguns milhares de discípulos nos Estados Unidos, na Inglaterra (sobretudo em Manchester), na Suécia e na Alemanha. Sei que o pai de William e Henry James era swedenborgiano. Encontrei swedenborgianos nos Estados Unidos, onde uma sociedade continua publicando seus livros e traduzindo-os para o inglês. 
É curioso que a obra de Swedenborg, embora traduzida para muitos idiomas – inclusive indiano e japonês –, não tenha exercido maior influência. Não se conseguiu alcançar a renovação que ele desejava. Ele pensava em fundar uma nova Igreja, que seria, para o cristianismo, o que a Igreja protestante representou para a Igreja de Roma. Em parte, ele descria das duas. No entanto, não exerceu essa vasta influência que deveria ter exercido. Creio que tudo isso faz parte do destino escandinavo, no qual parece que tudo aconteceu como em um sonho e em uma bola de cristal. Por exemplo, os vikings descobrem a América vários séculos antes de Colombo, e nada acontece. A arte do romance é inventada na Islândia, com a saga, mas tal invenção não é difundida. Temos figuras que deveriam ser universais – a de Carlos XII, por exemplo –, mas pensamos em outros conquistadores que realizaram feitos militares talvez inferiores aos de Carlos XII. O pensamento de Swedenborg deveria ter levado à renovação da Igreja em todas as partes do mundo, mas pertence a esse destino escandinavo, que é como um sonho.
Sei que na Biblioteca Nacional há um exemplar de Do Céu, do Inferno e Suas Maravilhas. Em algumas livrarias teosóficas, no entanto, não se encontram obras de Swedenborg. Ele é, porém, um místico muito mais
complexo que os outros; estes só nos disseram haver experimentado o êxtase e tentaram transmitir o êxtase de uma forma até literária. Swedenborg é o primeiro explorador do outro mundo, o explorador que devemos levar a sério. No caso de Dante, que também nos oferece uma descrição do Inferno, do Purgatório e do Paraíso, compreendemos que se trata de uma ficção literária.
Não podemos acreditar, realmente, que tudo aquilo que relata se refira a uma vivência pessoal. Além do mais, aí está o verso que o amarra: ele não pôde ter experimentado em verso.
No caso de Swedenborg, temos uma vasta obra. Temos livros como A Religião Cristã na Providência Divina e, sobretudo, esse livro que recomendo a todos vocês, sobre o céu e o inferno. Esse livro foi traduzido para o latim, para o inglês, para o alemão, para o francês e, creio, também para o espanhol. Nele a doutrina é descrita com grande lucidez. É absurdo pensar que um louco a tenha escrito. Um louco não teria podido escrever com tal clareza. Ademais, a vida de Swedenborg mudou, no sentido de que ele deixou de lado todos os seus livros científicos. Ele pensou que os estudos científicos haviam sido uma preparação divina para enfrentar as outras obras. Dedicou-se a visitar os céus e os infernos, a conversar com os anjos e com Jesus e, em seguida, a nos contar tudo isso em uma prosa serena, em uma prosa antes de mais nada lúcida, sem metáforas nem exageros. Há muitos casos pessoais memoráveis, como o que lhes contei acerca do homem que quer merecer o céu, mas que só pode merecer o deserto, por haver empobrecido sua vida. Swedenborg nos convida a todos a nos salvarmos mediante uma vida mais rica. A nos salvarmos por meio da justiça, da virtude e da inteligência também.
Em seguida virá Blake, que acrescenta que para salvar-se o homem também deve ser um artista. Quer dizer, uma tripla salvação: temos de nos salvar pela bondade, pela justiça e pela inteligência abstrata, e, ainda, pelo exercício da arte. 

9 de junho de 1978.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Da magia e dos homens





Há um tempo atrás estava sofrendo algumas sensações muito estranhas. Eu sabia que não eram minhas e viria a descobrir, sem surpresa, que eram fruto da chamada magia negra, realizada por uma mulher que pouco conheço. Antes de tudo, pare e leia: o nome magia negra pode impressionar, e atribui-se a ela no Brasil a popular macumba, além de animais, órgãos e pessoas mortas, regados a cachaça etc.  Recentemente, foram denunciadas práticas desse tipo envolvendo o nosso ilustre ex-presidente Collor (e política e magia são quase irmãos, acreditem).
Mas a magia negra é muito mais que esse folclore, que um conjunto de rituais macabros e muito específicos para prejudicar algo ou alguém. Por vezes, você pode se convencer que está “ajudando” uma pessoa, quando através de simples técnicas mentais e treino, você a evoca para que faça aquilo que você quer. E, acreditem, magia negra é, antes de tudo, exatamente isso.
Essa mulher estava obcecada por um grande amigo meu, um homem mais velho e muito sábio, com quem gostava de passar horas conversando. Bastou que ela flagrasse uma vez nossa conversa, que sensações muito ruins de uma presença próxima começaram a acontecer em mim. Eu sequer sabia algo sobre ela, nem que nos havia visto; apenas me perguntava o que ela estava fazendo entre nós, místicos. Como se não pertencesse ao conjunto, era isso o que eu sentia, embora fosse sempre muito simpática comigo.
Passei dias terríveis, sentindo coisas que não se podem classificar no repertório da psiquiatria – e meu psiquiatra, versado no assunto, foi o primeiro a alertar-me sobre isso.  Quando soube que a mulher havia tido uma crise de ciúme quando nos viu, liguei os fatos. Mas o mais incrível é que, dias depois, em um centro espírita – religião cujo templo não costumo frequentar - me deparei com essa mesma mulher. Ambas sabemos que não existem coincidências no misticismo;  e treinando sua mente e concentração com certas técnicas, esses encontros tornam-se muito comuns.

- Que coincidência! – exclamou, alegre por me ver. Estava justamente pensando e falando em você! Tudo o que eu penso se manifesta, incrível! – observou. Eu gelei. Tive certeza ali, diante dela, que não só ela  era a autora dos ataques, como a causa ia além do ciúme: era a mais pura inveja. Ela queria saber tudo sobre minha vida. Disse-me que frequentava centros espíritas, igrejas messiânicas, tudo ao mesmo tempo, e por fim decidiu-se por aquele lugar. Mais tarde eu iria saber que ela teve acesso a livros muito específicos para controlar mentes e pessoas, daí o interesse no misticismo e em religiões. Certas técnicas, se levadas a sério e com muita concentração durante um tempo, são altamente poderosas, e nós sabemos disso. O que não sabíamos é que poderiam cair em mãos tão equivocadas.
Ela começou, como uma amiga, a me perguntar sobre meu casamento, minha filha, tudo em detalhes. Fui monossilábica, mas ela não se afastou.
- Eu vou ter uma filha – sorriu animada.
- Você está grávida? – concluí.
- Não, ainda não. Mas vou estar logo. E o pai dela frequenta esse centro espírita – falou, com convicção assustadora.

Eu gelei de novo. E perguntei só para confirmar a resposta:
- Ele sabe?
- Não. Ele saberá no momento certo, no lugar certo – sorriu.

Ali entendi tudo. Por onde essa mulher passa, acorrenta almas frágeis a ela. É considerado entre os místicos algo muito grave interferir no livre-arbítrio alheio. Pois a vontade, aquilo que nos move, é o que somos. Todos os livros sagrados nos contam sobre a Queda, a queda do homem e dos anjos dos domínios de Deus. Essa bela alegoria, a qual muitos temem, mostra-nos do que somos feitos. Não seria possível para a grande mente criar outros seres a partir dele sem vontade. A pura emanação criaria tão-somente pequenas réplicas de Deus. O livre-arbítrio é o que nos individualiza e, assim, nos torna únicos no universo. A individualização é o que legitima a verdadeira criação.

A mulher foi alertada sobre isso por muitos místicos, os efeitos terríveis que poderia causar menos aos outros que a si mesma. Quem desconhece do que se trata, algum leigo, pode enlouquecer com os sintomas que a magia negra causa. Mesmo para quem, como eu, domina algumas técnicas de defesa e reconhece os efeitos, ela pode fazer estragos. E infelizmente, após aquele encontro, ela passou a me manter à rédea curta e os sintomas pioraram. A causa, contou-me meu amigo, vinha da raiva que passei a sentir por ela, ligando-me mais ainda à sua existência. Quando percebi isso, orei por mim e pela mulher dia e noite e desfiz o nó. Abandonei os sintomas e sentimentos menores, como se nunca houvessem acontecido. Soa piegas, mas Cristo tinha razão: só o amor é real, somente ele permanece.