EMANUEL SWEDENBORG, segundo Borges
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Jorge Luis Borges
Buenos Aires, 24/08/1899 — Genebra, 14/06/1986 |
Voltaire disse que o
homem mais extraordinário registrado pela história foi Carlos XII. Eu
diria: talvez o homem mais extraordinário – a admitirmos tais
superlativos – tenha sido o mais misterioso dos súditos de Carlos
XII, Emanuel Swedenborg. Quero dizer algumas palavras sobre ele e, em
seguida, falar de sua doutrina, que é o que mais nos interessa.
Emanuel
Swedenborg nasceu em Estocolmo, no ano de 1688, e morreu em Londres, em
1772. Uma longa vida, mais longa ainda se pensarmos nas breves vidas da
época. Quase conseguiu completar cem anos. Sua vida divide-se em três
períodos. Esses períodos são de intensa atividade. Cada um deles dura –
já se calculou – vinte e oito anos. No início, temos um homem
dedicado ao estudo. O pai de Swedenborg era um bispo luterano, e
Swedenborg foi educado no luteranismo, cuja pedra angular, como se sabe,
é a salvação pela graça – em que Swedenborg não acredita. Em seu
sistema, na nova religião que pregou, fala-se da salvação pelas obras,
embora estas não sejam, certamente, missas nem cerimônias; são obras
verdadeiras, obras nas quais se insere o homem em sua totalidade, quer
dizer, seu espírito e, o que é ainda mais curioso, também sua
inteligência.
Pois
bem, Swedenborg começa como presbítero e depois se interessa pelas
ciências. Estas lhe interessam, sobretudo, de modo prático. Mais
tarde, descobriu-se que ele se antecipara a muitas invenções ulteriores.
Por exemplo, a hipótese nebular de Kant e de Laplace. Em seguida, a
exemplo de Leonardo da Vinci, Swedenborg desenhou um veículo para andar
pelo ar. Ele sabia que era inútil, mas nele via um possível ponto de
partida para aquilo que hoje denominamos aviões. Também desenhou
veículos para andarem debaixo d´água, como havia previsto Francis
Bacon. Depois, interessou-se – fato também singular – pela mineralogia.
Foi assessor para assuntos de minas em Estocolmo. Interessou-se também
pela anatomia. E, como Descartes, interessou-lhe o ponto exato em que o
espírito se comunica com o corpo.
Disse
Emerson: "Lamento dizer que ele nos deixou cinqüenta
volumes". Cinqüenta volumes, dos quais vinte e cinco, pelo menos, são
dedicados à ciência, à matemática, à astronomia. Recusou-se a ocupar a
cátedra de Astronomia na Universidade de Upsala, pois repudiava tudo que
fosse teórico. Era um homem prático. Foi engenheiro militar de Carlos
XII, que o prestigiou. Os dois se relacionaram muito: o herói e o futuro
visionário. Swedenborg idealizou uma máquina para transportar navios
por terra, em uma daquelas guerras quase míticas de Carlos XII, sobre as
quais escreveu tão esplendidamente Voltaire. Transportaram os barcos de
guerra ao longo de vinte milhas.
Mais
tarde, mudou-se para Londres, onde estudou as artes do carpinteiro, do
ebanista, do tipógrafo, do fabricante de instrumentos. Também
desenhou mapas para os globos terrestres. Ou seja, foi um homem
eminentemente prático. A propósito, recordo uma frase de Emerson:
"Nenhum homem levou uma vida mais real que Swedenborg". É necessário que
saibamos isso, que juntemos toda essa sua obra cientifica e prática.
Foi também um político – foi senador do reino. Aos cinqüenta e cinco
anos já havia publicado uns vinte e cinco volumes sobre mineralogia,
anatomia e geometria.
Aconteceu,
então, o fato capital de sua vida. O fato capital de sua vida foi uma
revelação. Recebeu essa revelação em Londres, precedida de
sonhos, registrados em seu diário. Não foram publicados, mas sabe-se
terem sido sonhos eróticos.
E,
depois, veio a visitação, que alguns consideraram um acesso de loucura.
Isto, porém, é negado pela lucidez de sua obra, pelo fato de que,
em nenhum momento, nós nos sentimos diante de um louco.
Escreve
sempre com grande clareza, quando expõe sua doutrina. Em Londres, um
desconhecido que o havia seguido pela rua entrou em sua casa e disse-lhe
que era Jesus, que a Igreja estava em decadência – como a
Igreja judaica, quando surgiu Jesus Cristo – e que ele tinha o dever de
renovar a Igreja, criando uma terceira Igreja, a de Jerusalém. Tudo isso
parece absurdo, inacreditável, mas temos a obra de Swedenborg. E essa
obra é muito vasta, escrita em um estilo muito tranqüilo. Ele não
justifica nada, em momento algum. Aqui, cabe recordar aquela frase
de Emerson, que diz: "Os argumentos não convencem ninguém".
Swedenborg expõe tudo com autoridade, com tranqüila autoridade.
Pois
bem, Jesus disse-lhe que o encarregava da missão de renovar a Igreja e
que lhe seria permitido visitar o outro mundo, o mundo dos espíritos,
com seus inumeráveis céus e infernos. Que seu dever era estudar a
Sagrada Escritura. Antes de escrever algo, ele se dedicou, ao longo de
dois anos, ao estudo da língua hebraica, pois queria ler os textos
originais. Voltou a estudar os textos e neles acreditou haver encontrado
o fundamento de sua doutrina, um pouco à maneira dos cabalistas, que
encontram razões para o que procuram no texto sagrado.
Analisemos,
antes de mais nada, sua visão do outro mundo, sua visão da imortalidade
pessoal, na qual acreditou, e veremos que toda ela se baseia
no livre-arbítrio. Na Divina Comédia, de Dante – essa obra tão bela
literariamente –, o livre-arbítrio cessa no momento da morte. Os mortos
são condenados por um tribunal e merecem o céu ou o inferno. Na obra de
Swedenborg, ao contrário, nada disso ocorre. Ele nos diz que, ao morrer,
o homem não se dá conta de haver morrido, já que tudo que o circunda
continua igual. Encontra-se em sua casa, os amigos o visitam, ele
percorre as ruas de sua cidade, não imagina, enfim, que morreu. Mas logo
começa a notar algo. Começa a notar algo que a princípio o alegra e
que, depois, o assusta: tudo, no outro mundo, é mais vívido que neste.
Sempre
imaginamos o outro mundo de modo nebuloso, mas Swedenborg nos diz que
ocorre exatamente o contrário, que as sensações são muito mais vívidas
no outro mundo. Nele há, por exemplo, mais cores. E, se imaginamos que
os anjos, no céu de Swedenborg, como quer que se encontrem, estão sempre
de rosto voltado para o Senhor, podemos igualmente imaginar uma espécie
de quarta dimensão. Em todo caso, Swedenborg repete que o outro mundo é
muito mais vívido que este. Nele há mais cores, há mais formas. Tudo é
mais concreto, tudo é mais tangível que neste mundo. "Tanto é assim" –
diz ele – "que este mundo, comparado com o mundo que vi em
minhas inumeráveis andanças pelos céus e pelos infernos, é como uma
sombra. É como se vivêssemos na sombra."

Aqui
lembro uma frase de Santo Agostinho. Em Civitas Dei, Santo Agostinho
diz que, sem dúvida, o gozo sensual era mais forte no Paraíso do que
aqui, porque não se pode supor que a queda tenha melhorado alguma
coisa. E Swedenborg diz o mesmo. Ele fala dos gozos carnais nos céus e
nos infernos do outro mundo e diz que são muito mais vívidos que os
daqui. O que acontece quando um homem morre? No princípio, não se dá
conta de haver morrido. Prossegue em suas ocupações habituais, recebe a
visita dos amigos, conversa com eles. E, depois, pouco a pouco, os
homens percebem, assustados, que tudo é mais vívido, que há mais cores. O
homem pensa: "Eu vivi todo o tempo na sombra; agora eu vivo na luz". E
isso pode alegrá-lo por um momento.
Em
seguida, dele se aproximam desconhecidos, que com ele conversam. E
esses desconhecidos são anjos e demônios. Swedenborg diz que os anjos
não foram criados por Deus, que os demônios não foram criados por Deus.
Os anjos são homens que ascenderam à condição angelical; os demônios
são homens que desceram à condição demoníaca. De modo que toda a
população dos céus e dos infernos é composta de homens, e estes homens
são, agora, anjos e são, agora, demônios. Pois bem, do morto se acercam
anjos. Deus não condena ninguém ao inferno. Deus quer que todos os
homens se salvem. Ao mesmo tempo, no entanto, Deus concedeu ao homem o
livre-arbítrio, o terrível privilégio de condenar-se ao inferno ou de
merecer o céu. Quer dizer, quanto à doutrina do livre-arbítrio, que,
segundo a doutrina ortodoxa, cessa após a morte, Swedenborg a conserva
até depois da morte. Há, então, uma região intermediária, a região dos
espíritos. Nela estão os homens, as almas daqueles que morreram, e eles
conversam com anjos e com demônios.
Então,
chega aquele momento que pode durar uma semana, pode durar um mês, pode
durar muitos anos; não sabemos quanto tempo pode durar. Nesse momento,
o homem resolve ser um demônio, ou vir a ser um demônio ou um anjo. Em
um dos casos merece o inferno. Essa região é uma região de vales
e também de fendas. Essas fendas podem ser inferiores, que comunicam com
os infernos, ou fendas superiores, que comunicam com os céus. E o
homem procura, conversa e permanece na companhia daqueles de quem gosta.
Se tem temperamento demoníaco, prefere a companhia dos demônios; se
tem temperamento angelical, a companhia dos anjos. Se quiserem uma
descrição de tudo isso – por certo muito mais eloqüente do que a minha
–, vocês a encontrarão no terceiro ato de Man and Superman, de Bernard
Shaw.
É curioso que Shaw jamais
mencione Swedenborg. Creio que ele chegou a fazê-lo por intermédio de
Blake, ou através de sua própria doutrina. Porque no sistema de John
Tanner é mencionada a doutrina de Swedenborg, mas sem que este seja
nomeado. Presumo não ter havido desonestidade por parte de Shaw, mas sim
que sua crença tenha sido sincera. Presumo que Shaw tenha chegado às
mesmas conclusões por intermédio de William Blake, que ensaia a doutrina
da salvação anunciada por Swedenborg.
Bem,
o homem, então, conversa com anjos, o homem conversa com demônios, e
sente-se atraído mais por uns que por outros. Isso, segundo
seu temperamento. Aqueles que se condenam ao inferno – já que Deus
não condena ninguém – sentem-se atraídos pelos demônios. Agora, o que
são os infernos? Os infernos, segundo Swedenborg, têm vários aspectos. O
aspecto que teriam para nós ou para os anjos. São áreas pantanosas,
áreas em que há cidades que parecem ter sido destruídas por incêndios;
mas aí os réprobos sentem-se felizes. Sentem-se felizes a seu modo, ou
seja, estão cheios de ódio e não há um monarca nesse reino;
continuamente estão conspirando uns contra os outros. É um mundo de
baixa política, de conspiração. Isso é o inferno. A seguir, temos o céu,
que é o oposto, o que corresponde simetricamente ao inferno. Segundo
Swedenborg – e esta é a parte mais difícil de sua doutrina –, haveria um
equilíbrio entre as forças infernais e as forças angelicais, necessário
para que o mundo subsista. Nesse equilíbrio é sempre Deus que manda.
Deus permite que os espíritos infernais permaneçam no inferno, pois
só no inferno eles se sentem felizes. E Swedenborg nos relata o caso de
um espírito demoníaco que ascende ao céu, aspira o perfume do céu, ouve
as conversas do céu, e tudo lhe parece horrível. O perfume lhe parece
fétido, a luz lhe parece negra. Então, ele volta para o inferno, porque
só no inferno é feliz. O céu é o mundo dos anjos. E Swedenborg
acrescenta que o inferno todo tem a forma de um demônio; e o céu, a
forma geral de um anjo. O céu compõe-se de sociedades de anjos, e
aí está Deus. E Deus é representado pelo sol.

De
modo que o sol corresponde a Deus; e os piores infernos são os infernos
ocidentais e os do norte. Em compensação, a leste e ao sul os
infernos são mais suaves. Ninguém está condenado a eles. Cada um procura
a sociedade que quiser, procura os companheiros que quiser, e o faz
segundo o apetite que dominou sua vida. Aqueles que chegam ao céu têm
uma noção equivocada. Pensam que no céu rezarão continuamente; e é-lhes
permitido rezar, mas, ao fim de poucos dias ou semanas, eles se cansam:
dão-se conta de que isso não é o céu. Depois, adulam Deus; louvam-No.
Deus não gosta de ser adulado. E essa gente também se cansa de adular
Deus. Imaginam, certamente, que poderão ser felizes conversando com seus
entes queridos; ao fim de certo tempo, porém, percebem que os entes
queridos e os heróis ilustres podem ser tão entediantes na outra vida
como nesta. Cansam-se disso e, então, entram na verdadeira obra do
céu. E, neste ponto, recordo um verso de Tennyson, em que ele diz que a
alma não deseja assentos dourados; simplesmente, deseja que lhe seja
concedido o dom de continuar e de não cessar. Quer dizer, o céu de
Swedenborg é um céu de amor e, acima de tudo, um céu de trabalho, um céu
altruísta. Cada um dos anjos trabalha para os outros; todos trabalham
para os demais. Não é um céu passivo. Tampouco é uma recompensa. Se
alguém tem temperamento angelical, alcança esse céu e nele se sente bem.
Mas há outra diferença muito importante no céu de Swedenborg: seu céu é
eminentemente intelectual. Swedenborg narra a história, patética, de um
homem que durante sua vida se propôs ganhar o céu. Para tanto,
renunciou a todos os gozos sensuais.

Retirou-se
à tebaida. Aí, abstraiu-se de tudo. Rezou, pediu o céu. Quer dizer, foi
se empobrecendo. E o que acontece quando ele morre? Quando morre, chega
ao céu, e no céu não sabem o que fazer com ele. Ele tenta acompanhar
as conversas dos anjos, mas não as compreende. Tenta aprender as artes.
Tenta ouvir tudo. Tenta aprender tudo e não consegue, porque se
empobreceu. É, apenas, um homem justo e mentalmente pobre. Concedem-lhe,
então, como dom, o poder idealizar uma imagem: o deserto. No deserto,
ele rezava como rezava na terra, mas sem se separar do céu, pois sabia
que se tornara indigno do céu, por sua penitência, por haver empobrecido
sua vida, por se haver negado os gozos e os prazeres da vida, o que
também é um mal. Essa é uma inovação de Swedenborg, porque sempre se
pensou que a salvação tem caráter ético. Quer dizer, se um homem é
justo, ele se salva. "Dos pobres de espírito é o reino dos céus", etc. É
o que comunica Jesus. Mas Swedenborg vai mais longe. Diz que isso não
basta, que um homem tem de salvar-se também intelectualmente. Ele
imagina o céu, sobretudo, como uma série de conversas teológicas entre
os anjos. E, se um homem não pode acompanhar essas conversas, é indigno
do céu. Assim, deve viver sozinho. Mas depois virá William Blake, que
acrescenta uma terceira salvação. Diz que podemos, que temos de nos
salvar também por meio da arte. Blake explica que também Cristo foi um
artista, já que não pregava por meio de palavras, mas de parábolas. E as
parábolas são, é claro, expressões estéticas. Quer dizer, a salvação se
daria pela inteligência, pela ética e pelo exercício da arte. Neste
ponto recordamos algumas das frases em que Blake, de algum modo,
suavizou as longas sentenças de Swedenborg. Quando diz, por exemplo: "O
bobo não entrará no céu, por mais santo que seja". Ou, ainda: "É
preciso prescindir da santidade; é preciso se investir de
inteligência".
De modo que temos
esses três mundos. Temos o mundo do espírito e, em seguida, ao fim de
certo tempo, um homem terá merecido o céu, um homem terá merecido o
inferno. O inferno é, na verdade, regido por Deus, que necessita desse
equilíbrio. Satanás é, simplesmente, o nome de uma região. O demônio é,
simplesmente, um personagem mutante, já que todo o inferno é um mundo de
conspirações, de pessoas que se odeiam, que se juntam para
atacar outra.

Depois
Swedenborg passa a conversar com diferentes pessoas no paraíso, com
diferentes pessoas nos infernos. Tudo isso lhe é permitido, para que
funde a nova Igreja. E o que faz Swedenborg? Não faz pregações; publica
livros, anonimamente, escritos em sóbrio e árido latim. E difunde tais
livros. Assim transcorrem os últimos trinta anos da vida de Swedenborg.
Vive em Londres. Leva uma vida muito simples. Alimenta-se de leite, pão,
legumes. Às vezes, chega um amigo da Suécia, quando, então, ele se
permite uns dias de descanso. Quando foi à Inglaterra, quis conhecer
Newton, porque lhe interessava muito a nova astronomia, a lei da
gravidade. Mas nunca chegou a conhecê-lo. Interessou-se muito pela
poesia inglesa. Em seus escritos menciona Shakespeare, Milton e outros.
Tece-lhes elogios por sua imaginação; quer dizer, esse homem tinha senso
estético. Sabemos que, quando percorria os países – porque viajou pela
Suécia, Inglaterra, Alemanha, Áustria, Itália –, visitava as fábricas,
os bairros pobres. Apreciava muito a música. Era um cavalheiro daquela
época. Chegou a ser um homem rico. Seus criados moravam no andar térreo
de sua casa, em Londres (a casa foi demolida recentemente), e o viam
conversando com os anjos ou discutindo com os demônios. No diálogo,
jamais quis impor suas idéias. Naturalmente não permitia que zombassem
de suas visões, tampouco queria impô-las: antes procurava desviar a
conversa desses temas.
Há uma
diferença essencial entre Swedenborg e os outros místicos. No caso de
San Juan de la Cruz, temos descrições muito vívidas do êxtase. Temos o
êxtase referido em termos de experiências eróticas ou com metáforas
de vinho. Por exemplo, um homem que se encontra com Deus, e Deus é igual
a si mesmo. Há um sistema de metáforas. Na obra de Swedenborg, ao
contrário, não há nada disso. É a obra de um viajante que percorreu
terras desconhecidas e que as descreve tranqüila e minuciosamente. Por
isso, sua leitura não é exatamente divertida. É assombrosa
e gradativamente divertida. Li os quatro volumes de Swedenborg que
foram traduzidos para o inglês e publicados pela Everyman´s Library.
Disseram-me que existe uma tradução em espanhol, uma seleção, publicada
pela Editora Nacional. Vi alguns registros estenográficos sobre ele,
sobre toda aquela esplêndida conferência feita por Emerson. Emerson
proferiu uma série de conferências sobre homens representativos.
Chamou-as: "Napoleão, ou o homem do mundo; Montaigne, ou o cético;
Shakespeare, ou o poeta; Goethe, ou o homem de letras; Swedenborg, ou o
místico". Esta foi a primeira introdução que li à obra de Swedenborg.
Essa conferência de Emerson, que é memorável, em última análise, não
está inteiramente de acordo com Swedenborg. Havia algo que lhe
desagradava: talvez por Swedenborg haver sido tão minucioso, tão
dogmático. Porque Swedenborg insiste várias vezes nos mesmos fatos.
Repete a mesma idéia. Não procura analogias. É um viajante que percorreu
um país muito estranho. Que percorreu os inumeráveis céus e infernos, e
que os descreve. Vejamos, agora, outro tema de Swedenborg: a doutrina
das correspondências. Tenho para mim que ele idealizou tais
correspondências para encontrar suas doutrinas na Bíblia. Ele diz que
cada palavra, na Bíblia, tem pelo menos dois sentidos. Dante acreditava
haver quatro sentidos para cada passagem.
Tudo
deve ser lido e interpretado. Por exemplo, se se fala da luz, a luz
é, para ele, uma metáfora, símbolo evidente da verdade. O cavalo
significa a inteligência, pelo fato de o cavalo nos transportar de um
lugar a outro.
Swedenborg possui todo um sistema de correspondências. Nisto ele se parece muito com os cabalistas.
Depois
disso, ele chega à idéia de que no mundo tudo se baseia
em correspondências. A criação é uma escrita secreta, uma criptografia
que devemos interpretar. Que todas as coisas são, realmente, palavras,
salvo as que não conseguimos compreender e que aceitamos literalmente.

Lembro
aquela terrível sentença de Carlyle, que leu Swedenborg, não sem certo
proveito, e que diz: "A história universal é uma escrita que temos
de ler e escrever continuamente". E é verdade: continuamente
presenciamos a história universal e somos atores dela. E também somos
letras, também somos símbolos: "Um texto divino no qual nos escrevem".
Tenho, em casa, um dicionário de correspondências. Nele pode-se procurar
qualquer palavra da Bíblia e verificar qual o sentido espiritual que
Swedenborg lhe atribuiu. Sem dúvida, ele acreditou, acima de tudo, na
salvação pelas obras. Na salvação pelas obras não apenas do espírito,
mas também da mente. Na salvação pela inteligência. Para ele, o céu é,
antes de mais nada, um céu de extensas considerações teológicas. Os
anjos, acima de tudo, conversam. Mas o céu é, igualmente, pleno de amor.
Admite-se o casamento no céu. Admite-se tudo que existe de sensual
neste mundo. Ele não quer negar nem empobrecer nada.
Atualmente
há uma igreja swedenborgiana. Creio que em algum lugar dos Estados
Unidos existe uma catedral de cristal. E existem também alguns milhares
de discípulos nos Estados Unidos, na Inglaterra (sobretudo
em Manchester), na Suécia e na Alemanha. Sei que o pai de William e
Henry James era swedenborgiano. Encontrei swedenborgianos nos Estados
Unidos, onde uma sociedade continua publicando seus livros e
traduzindo-os para o inglês.
É
curioso que a obra de Swedenborg, embora traduzida para muitos idiomas –
inclusive indiano e japonês –, não tenha exercido maior influência. Não
se conseguiu alcançar a renovação que ele desejava. Ele pensava
em fundar uma nova Igreja, que seria, para o cristianismo, o que a
Igreja protestante representou para a Igreja de Roma. Em parte, ele
descria das duas. No entanto, não exerceu essa vasta influência que
deveria ter exercido. Creio que tudo isso faz parte do
destino escandinavo, no qual parece que tudo aconteceu como em um sonho e
em uma bola de cristal. Por exemplo, os vikings descobrem a América
vários séculos antes de Colombo, e nada acontece. A arte do romance é
inventada na Islândia, com a saga, mas tal invenção não é difundida.
Temos figuras que deveriam ser universais – a de Carlos XII, por exemplo
–, mas pensamos em outros conquistadores que realizaram feitos
militares talvez inferiores aos de Carlos XII. O pensamento de
Swedenborg deveria ter levado à renovação da Igreja em todas as partes
do mundo, mas pertence a esse destino escandinavo, que é como um sonho.
Sei
que na Biblioteca Nacional há um exemplar de Do Céu, do Inferno e Suas
Maravilhas. Em algumas livrarias teosóficas, no entanto, não
se encontram obras de Swedenborg. Ele é, porém, um místico muito mais
complexo
que os outros; estes só nos disseram haver experimentado o êxtase
e tentaram transmitir o êxtase de uma forma até literária. Swedenborg é
o primeiro explorador do outro mundo, o explorador que devemos levar a
sério. No caso de Dante, que também nos oferece uma descrição do
Inferno, do Purgatório e do Paraíso, compreendemos que se trata de uma
ficção literária.
Não podemos
acreditar, realmente, que tudo aquilo que relata se refira a
uma vivência pessoal. Além do mais, aí está o verso que o amarra: ele
não pôde ter experimentado em verso.
No
caso de Swedenborg, temos uma vasta obra. Temos livros como A Religião
Cristã na Providência Divina e, sobretudo, esse livro que recomendo a
todos vocês, sobre o céu e o inferno. Esse livro foi traduzido para o
latim, para o inglês, para o alemão, para o francês e, creio, também
para o espanhol. Nele a doutrina é descrita com grande lucidez. É
absurdo pensar que um louco a tenha escrito. Um louco não teria podido
escrever com tal clareza. Ademais, a vida de Swedenborg mudou, no
sentido de que ele deixou de lado todos os seus livros científicos. Ele
pensou que os estudos científicos haviam sido uma preparação divina para
enfrentar as outras obras. Dedicou-se a visitar os céus e os infernos, a
conversar com os anjos e com Jesus e, em seguida, a nos contar tudo
isso em uma prosa serena, em uma prosa antes de mais nada lúcida, sem
metáforas nem exageros. Há muitos casos pessoais memoráveis, como o que
lhes contei acerca do homem que quer merecer o céu, mas que só pode
merecer o deserto, por haver empobrecido sua vida. Swedenborg nos
convida a todos a nos salvarmos mediante uma vida mais rica. A nos
salvarmos por meio da justiça, da virtude e da inteligência também.
Em
seguida virá Blake, que acrescenta que para salvar-se o homem também
deve ser um artista. Quer dizer, uma tripla salvação: temos de
nos salvar pela bondade, pela justiça e pela inteligência abstrata, e,
ainda, pelo exercício da arte.
9 de junho de 1978.