segunda-feira, 3 de junho de 2013

Albertina



Albertina devia ter mais de 70 anos. Apresentou-se de cabelos esbranquiçados compridos,  vestido leve e olhos azuis, e vi diante de mim uma feiticeira. A fala era firme, os propósitos, mais ainda. Sabia que havia sido guerrilheira na ditadura militar, que havia sofrido das piores torturas que alguém já ouviu falar e sido exilada na Europa. Sabia de uma história marcada pela certeza de querer viver. Mas era mais do que isso: devido ao enorme sofrimento, Albertina acabou atingindo a iluminação, ou o que os cristãos chamam de santidade. Ela não sabia como descrever bem o fenômeno, até porque palavras lhe interessam muito pouco. “Vou te contar sobre o meu despertar”, anunciou. Eu não imaginava do que se tratava.

Quando um pobre mortal nos fala sobre um “despertar”, os místicos não imaginam tratar-se de iluminação, porque raríssimos são aqueles que chegaram ao nível de Buda, Cristo, Lao-tsé ou alguns monges tibetanos. Pensamos numa forma de redenção, como alguns seguidores de igreja episcopais que cometem crimes e “encontram a Jesus”, ou qualquer forma de sofrimento alheio que consegue ser transcendido através de uma crença. Mas Albertina não tinha crença alguma, resistia até em pronunciar a palavra Deus. “Está viciada, perdeu o sentido”, comentava. Eu tentava outros nomes: o cosmos, o grande espírito, a existência? Ela balançava a cabeça: “não tente entender pelas palavras, elas corrompem tudo, estragam tudo”, insistia. Mas eu, viciada, continuava buscando palavras e definições em silêncio, enquanto ela se emocionava cada vez mais ao narrar as passagens da sua vida. "A letra mata, o espírito vivifica", diria São Paulo.

O despertar foi uma explosão, com cerca de 35 anos. Uma explosão interna!, contou, maravilhada. Diante da minha estranheza, narrou rapidamente a fase de torturas no quartel, o exílio e a prisão na Espanha ao lado do amado, um psiquiatra. O despertar começou ainda quando lhe entregaram um telegrama na prisão, contando que seu namorado estava à beira da morte. Albertina já havia chorado muitas dores desde as punições da ditadura, mas nunca a esse ponto. Sabemos que muitas vezes a iluminação ocorre não só como Buda a descreve, em meditação profunda, mas sobretudo através de um sofrimento imensurável, como nos corredores de uma cadeira elétrica. É como se o sofrimento descomunal fosse uma espécie de purificação. Por algum motivo que ninguém dos funcionários de uma prisão consegue descrever, o condenado senta-se à cadeira serenamente, como se nada estivesse acontecendo e morre feliz e em silêncio; relatos desse tipo ocorrem mais do que se possa imaginar, e conheço um parecido sobre um fugitivo na Segunda Guerra. 

Um desespero brutal diante da morte do amado, somado a tudo que de terrível vinha lhe ocorrendo, provocou em Albertina um choro sem fim. Implorou a Deus que levasse a ela no lugar do namorado, com toda a sinceridade e chorou durante muito, muito tempo. Chorou com tanta força, sentindo uma forte dor na barriga – o plexo solar - que de tanto chorar, diz ela, aconteceu-lhe “a explosão”. Albertina ouviu um ruído enorme dentro da cabeça, como se algo tivesse realmente explodindo, o que lhe deu pavor. Mas ao se recuperar do choro e do susto, olhou ao redor e tudo havia mudado. A prisão, as paredes e as pessoas, tudo havia ganhado uma cor mais vibrante e bela, e a sensação era de que não havia mais separação entre si mesma e o mundo exterior; um enorme amor por tudo o que havia – pessoas, objetos, animais - tomou conta dela de forma extrema e inabalável, como acontecem nesses casos. Importante lembrar que esse amor é o que diferencia uma experiência religiosa da verificada quando se toma algo como um LSD, em que as coisas ficam mais vibrantes e a realidade, mais elástica por um tempo, mas não existem sinais desse amor incondicional pelo todo. A sensação de “voltar para casa”, uma espécie de reconhecimento, é também  imprescindível nos casos de iluminação. 

Albertina amava - e era - tudo o que existia. Ao olhar suas próprias mãos, seu corpo, o amor cresceu ainda mais. “Pela primeira vez, eu vi quem eu era, e eu era algo tão lindo! Tão lindo!”, repetia, emocionada. Eu bem sabia, principalmente através de pequenas experiências místicas, que tudo o que nos rodeia modifica-se de acordo com a nossa percepção; que não é algo dado, que a realidade de fato não existe e é moldada de acordo com o observador. Albertina também se referiu à perda das noções de tempo e espaço como os conhecemos, que os místicos aprendem que são ilusórias, produtos da mente humana para apreender o universo. A prova disso está numa meditação profunda, quando um minuto costuma parecer muitíssimo tempo e o espaço desaparece. “O tempo é a mente”, ensinou.

Vivendo apenas o presente, momento a momento, Albertina ganhou as ruas da Espanha. Olhava cada coisa, cada pessoa como parte dela mesma. “Eu era a noite, a lua, e ficava sendo a lua; depois eu era o sol e ficava sendo o sol, os animais, era tantas coisas! ”, dizia. Esse estado de graça, ou de maravilhamento pode durar um tempo enorme, e não existe nenhuma forma de resistência. Tudo o que nos faz resistir e temer, explicam os místicos, vem do medo mais fundamental: o medo da morte, do aniquilamento do ego, de que acabe a sua história de vida, que acreditamos ser o que somos. “O homem não é sua memória, não é o seu passado!”, frisou. O iluminado Eckhart Tolle conta que abandonou seu apartamento, tudo o que tinha e ficou dois anos perambulando pelos parques e ruas do Canadá. Ele dizia que sua noção de identidade havia se fragmentado; ele amava tudo o que existe e não havia mais nenhum temor em relação a nada. Albertina acrescentou que sequer havia fome nela, era coisa rara. “As pessoas não sabem disso, mas até a fome é um condicionamento da mente!”, revelou. Impossível não lembrar de toda a tradição do zen-budismo e da parábola em que Cristo se refere aos lírios do campo como coisas belas que crescem com pouquíssimas necessidades e sem nenhum esforço.

Com muita fome de viver, Albertina foi de carona até a Suíça. Seu namorado psiquiatra a reencontrou naquele estado de maravilhamento e diagnosticou-a com esquizofrenia. Albertina, puro amor incondicional, não ofereceu resistência. Levada ao médico, que ficou surpreso e calado com o relato, exclamou: “Meu senhor, isso não é esquizofrenia…é consciência cósmica!” O namorado psiquiatra não entendeu. Pediu encarecidamente que Albertina fosse internada, e ela acabou por ficar na ala de idosos abandonados do hospital. Ela afirma que não poderia ter sido mais lindo, ver senhoras tão alegres com a sua presença.
De volta aos lugares e pessoas da guerrilha, era difícil se adaptar. Todas aquelas pessoas concentradas em livros de Marx e socialismo que ela tanto amou, despertaram-lhe compaixão. “Eram pessoas mortas, que não entendiam que era preciso buscar o seu próprio caminho e abandonar os dos outros”, dizia. Outras coisas, com os novos olhos, pareciam-lhe muito mais vivas. O céu, todos os pequenos objetos, tudo era visto como “uma soma de pontinhos” que ela conseguia ver um por um, e que eram muito vivos! Átomos, moléculas podiam ser enxergados facilmente sem nenhum microscópio. Também eram muito vivas as carnes de animais. Mesmo bifes bem-passados se mexiam, saltavam dos pratos das pessoas, o que fez Albertina tornar-se vegetariana para sempre.

Certo dia, ela dormiu diante de uma foto de Che Guevara, e num piscar de olhos, recebeu um raio ou descarga, sendo transportada para uma outra dimensão num só golpe. Foi quando ela esteve mais próxima de Deus em toda a sua vida. “Eu estava numa imensidão, uma imensidão linda e sabia que aquele era O Pai”, dizia, resistindo a chamá-lo de Deus por tantos enganos a seu respeito. Esse foi o único momento em que Albertina chorou diante de mim e do meu marido, dois meros conhecidos, na mesa da casa da minha irmã. “Foi então que eu entendi quem era O Pai, e o porquê do nosso sofrimento. Todos nós sentimos, no fundo, muita saudade dele  e essa é a razão do nosso vazio”, descreve em lágrimas. Ela conta que quando entrou na imensidão, ouviu alguém dizer “soltem as mãos!”, frase que demorou anos para entender. Hoje Albertina acredita que se tratava da prisão ou condicionamento provocados pelos diálogos que acontecem no nosso cérebro. “Estamos todos presos nas mentes uns dos outros e não conseguimos sair!”, explica. Sabemos que o ego nos impede de nos amarmos verdadeira e incondicionalmente e que nos apegamos ao que pensamos possuir, como “meu marido”, “meu filho”, "meu trabalho". Albertina afirma que só depois do despertar, entendeu que nunca havia amado ninguém pelo que era: “Eu pensava que sim, mas não amava o meu filho, nem a ninguém. A mente não ama, ela possui”, esclarece.

De volta ao Brasil, a ex-guerrilheira foi obrigada a narrar serenamente aos militares suas idas e vindas pela Europa e por fim, sua experiência mística. Os homens ficaram impressionados. Um deles afirmou que outro preso viveu a mesma coisa durante um ritual de tortura. Altas patentes do exército decidiram procurá-la em segredo, para tirar dúvidas do relato. “Então de nada vale o exemplo?”, perguntou, atônito, um alto militar na surdina. Ela respondeu que cada um deve buscar por si mesmo o seu caminho.

Albertina encontrou o seu lugar no interior da Bahia, em contato com a natureza. Anos se passaram e ela estreitou seu contato com os animais, adotando vários cães em sua casa. Ela diz que eles são puros e sabem amar verdadeiramente, basta que os olhemos nos olhos. Sobre o despertar, que ainda hoje está vivo dentro dela e a faz chorar de emoção, declara: “Ando precisando de uma nova explosão!", acrescentando que todos deveriam ser despertados como ela foi. Conhecer sua história de vida pode ser o primeiro passo para acreditar que um dia chegaremos lá.

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